segunda-feira, 16 de junho de 2008
O bedelho.
Está uma daquelas noites agradáveis.
Tenho 15 minutos para percorrer 300 metros e chegar à estação fluvial.
Desta vez, não preciso de ser o Nélson Évora para apanhar o barco.
Portanto, mãos nos bolsos, um pé calmamente à frente do outro, e vai de aproveitar o tempo para ir pensando na vida.
Coisas a curto prazo, como por exemplo, se para o jantar vou fazer uma sopa de alho francês ou um creme de legumes.
Está uma pessoa a tentar tomar uma decisão desta importância quando alguém resolve pôr os pulmões em alta voz: "ANDA CÁ PARA FORA QUE EU MATO-TE!".
Ora, "matar" é um daqueles verbos que me põem logo a fazer continência...
Olho para trás e à porta de um restaurante, está um senhor a esbracejar ao som de um "É HOJE, PAH! É HOJE!".
Quem me conhece, sabe que eu não meto o bedelho onde não sou chamado.
E isto aplica-se a todas as situações, com a excepção a ser aquela em que 2 pessoas estão prestes a digladiarem-se sem haver um ringue por perto.
Esta mania - que pode ser apelidada de "parva" para baixo, reconheço - persegue-me desde a infância.
Devia ter uns 9 anos quando, impulsivamente, fui defender um miúdo que estava a ser espancado por um aprendiz de arruaceiro. Como tinha de levantar a cabeça para o ver, ainda levei uns bons tabefes.
Não me serviu de lição.
Nos anos seguintes, fossem brigas entre colegas, na escola, fossem conflitos no autocarro entre perfeitos desconhecidos, lá saltava eu para o meio.

[Mesmo quando a vontade é grande, há coisas que dificilmente mudam.
Esta é uma delas.
]


Nas vezes em que estas cenas acontecem, eu ainda espero que alguém intervenha.
Mas, entre os que têm bom senso e ignoram, e os que são espectadores da desgraça alheia e tiram bilhete para a primeira fila, não consigo conter o impulso.
Desta vez, enquanto os sapatos faziam inversão de marcha, metade do meu cérebro dizia que eu devia era ir apanhar o barco. A outra metade, pura e simplesmente, fazia-se de surda.
A poucos metros de distância, um homem de meia estatura, despia a camisa, expirava álcool por cada poro e provocava verbalmente o empregado junto à entrada.
O empregado, que pelo aspecto devia ser o Mr. Músculo ali do bairro, estava de braços cruzados, e com cara de poucos amigos, esforçava-se para não arranjar mais um cliente para o S. José e para não engrossar a fila do IEFP.
Quando as provocações passaram a insultos, e vi uma veia a latejar, percebi que não faltava muito para o caldo entornar.
Dizem-me algumas nódoas negras, que nestas situações, a abordagem deve ser feita junto da parte mais calma. Não havendo, opta-se pela parte menos enervada.
Dirigi-me ao Mr. Músculo e antes que ele desse o passo em frente, passei-lhe o braço pelos ombros.
Ainda agora estou para perceber como o conseguir [de]mover para o interior do restaurante.
À conta disso, há uma cadeira com menos uma perna.
Tirando isso, todos os intervenientes estão com todos os membros ilesos.
Isso, partido do princípio que o aspirante a Hulk, não tenha tropeçado no caminho para baixar a TAS.
Quanto a mim, como é óbvio, ainda não foi desta que consegui controlar o bedelho.
E a propósito, alguém sabe como é que é esse tal de Bedelho?
É que não há imagens do gajo...
 
Posted by Sávio Fernandes @ 23:03 ¤
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